Como a tecnologia pode fortalecer a democracia

Ativistas pró-democracia contam com acesso à internet aberta. Eles utilizam aplicativos, mídias sociais e outras tecnologias a fim de conscientizar a população, recrutar ativistas e organizar protestos. E usam as mídias sociais para promover campanhas eleitorais e outras iniciativas de engajamento comunitário.

Enquanto ativistas de várias estirpes se valem de ferramentas advindas das mídias sociais, uma internet aberta é especialmente valiosa para vozes marginalizadas que, de outra forma, não alcançariam seu público-alvo.

“Para as pessoas que estão nas mídias sociais, é virtualmente impossível evitar lembretes e incentivos para votar”, disse Jen Golbeck, professora da Universidade de Maryland que estuda redes sociais.

O livre fluxo de informações via internet e mídias sociais contribui para o debate aberto e a troca de ideias, dois princípios fundamentais da democracia. Em uma pesquisa de 2018 do Centro de Pesquisa Pew, 69% dos americanos disseram que as mídias sociais são úteis* como ferramenta para a defesa de interesses políticos, enquanto 67% disseram que são eficazes para criar uma mudança social sustentável.

“O fato é que [Martin Luther] King ou Ella Baker não podiam simplesmente acordar e sentar à mesa do café da manhã, e conversar com um milhão de pessoas”, disse DeRay Mckesson, ativista do Vidas Negras Importam.

Manifestantes ajoelhados na frente de policiais (© Julio Cortez/AP Images)
Manifestantes se ajoelham diante da polícia em 30 de maio de 2020, em Mineápolis, após a morte de George Floyd, homem negro desarmado que morreu após ser contido por policiais de Mineápolis no Dia em Memória às Vítimas de Guerra (© Julio Cortez/AP Images)

Entre os usuários de mídias sociais nos Estados Unidos, 23% disseram que mudaram de opinião* por causa de algo que viram nas redes sociais, de acordo com uma pesquisa do Centro Pew em 2020.

Nos EUA, o movimento Vidas Negras Importam começou em 2013 e ganhou seguidores por meio das mídias sociais em resposta ao assassinato de afro-americanos pela polícia.

Mulheres nos Estados Unidos que sobreviveram a agressões e assédio sexual compartilharam suas histórias e organizaram protestos por meio das mídias sociais.

Embora Tarana Burke, ativista de base, fundou um movimento contra agressões e assédio sexual em 2006, a visibilidade do grupo aumentou substancialmente depois que a atriz Alyssa Milano enviou um tuíte usando a hashtag #MeToo (Eu também, em tradução livre) em 2017, o que provocou um ativismo mundial.

Mulheres marcham segurando uma faixa com os dizeres '#MeToo' (Eu também) (© Damian Dovarganes/AP Images)
Tarana Burke, ao centro, fundadora e líder do movimento #MeToo (Eu também), marcha com outras pessoas na Marcha do #MeToo de 2017 em Los Angeles (© Damian Dovarganes/AP Images)

Membros da comunidade LGBTQI+, como a atriz Laverne Cox e a ativista Chella Man, usam o Twitter e o YouTube, respectivamente, para aumentar a conscientização sobre questões relativas a pessoas transgêneras.

As ferramentas de mídias sociais podem transcender as fronteiras nacionais, fortalecendo a ação de cidadãos internacionais. A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho lançou a campanha #ClimateChangedMe (O clima me mudou, em tradução livre) no Twitter visando combater as mudanças climáticas, incentivar o envolvimento de cidadãos e pedir uma ação política sobre o assunto. Voluntários e ativistas discutem a crise em vídeos compartilhados.

“Para mim, as mídias sociais representam ‘O poder dos impotentes’. Elas são catalisadoras”, disse Andrés Cañizález, jornalista venezuelano e diretor administrativo da organização sem fins lucrativos Medianálisis. “É a possibilidade de que pessoas comuns ou ativistas que não têm um canhão, um jornal ou um canal de notícias possam se manifestar, se conectar, falar com outras pessoas e expressar sua rejeição ao que estão vivendo.”

Homem em pé em um telhado exibindo uma foto em um celular (© Yamil Lage/AFP/Getty Images)
O cubano Rolando Remedios mostra uma foto de sua prisão durante os protestos de 11 de julho em Havana (© Yamil Lage/AFP/Getty Images)

Em julho, cubanos usaram as redes sociais para protestar contra as condições econômicas que os afetavam, ocasião em que manifestantes se reuniram em Havana e em 20 outras cidades. Em resposta, o governo restringiu o acesso à internet e aprovou leis para limitar o uso das redes sociais quando o intuito é organizar protestos.

Ativistas no Irã contam com o Instagram para se comunicar porque é a única plataforma dentre as mídias sociais que o governo não bloqueia*. Protestos antigovernamentais em julho de 2021 se espalharam por Teerã e várias cidades depois que um vídeo de manifestantes gritando slogans antigovernamentais circulou nas redes sociais.

Um desafio que ativistas digitais enfrentam são os regimes repressivos que tentam restringir, distorcer ou manipular o livre fluxo de informações on-line. Nessas nações, os ativistas escolhem aplicativos de mensagens que eles podem usar sem interferência do governo e trocam de plataforma quando uma proibição é imposta.

Cidadãos em Belarus usaram seus celulares a fim de postar vídeos on-line durante manifestações contra os resultados das eleições de agosto de 2020 que eles consideraram fraudulentas. Ativistas na Birmânia estão contando com o Telegram e o Signal, aplicativos de mensagens criptografadas, para protestar contra a repressão do governo à mídia após o golpe militar de fevereiro.

À esquerda: funcionária que serve merenda escolar segura um prato de comida. À direita: mulher sentada à mesa de um refeitório (Usaid/Olexandr Techyns’kyy)
Quando crianças ucranianas adoeciam com frequência depois de comer merenda escolar, Olga Nos, ao centro, usou plataformas digitais para investigar (Usaid/Olexandr Techyns’kyy)

Olga Nos, da Ucrânia, ouviu tantas queixas sobre crianças que adoeciam depois de comer no refeitório da escola que decidiu fazer uma investigação por conta própria. Para descobrir como as escolas locais estavam adquirindo alimentos, ela recorreu à DoZorro, uma rede digital anticorrupção* criada pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional. “Quando abri os contratos, vi que não havia requisitos de qualidade ou inspeções”, disse Olga.

Por meio do portal de monitoramento DoZorro, Olga e outros pais começaram a rastrear os contratos de alimentos. No final das contas, seus esforços resultaram na exigência de que todas as licitações para aquisição de alimentos escolares contivessem requisitos de qualidade.

Quando uma segunda onda de Covid-19 atingiu a Índia este ano, cidadãos recorreram a aplicativos com o objetivo de solicitar suprimentos para si ou parentes, e postaram informações sobre leitos hospitalares disponíveis e suprimentos de oxigênio.

Os americanos aprenderam a usar a tecnologia de forma criativa para superar os requisitos de distanciamento social durante a pandemia, pois as crianças tinham aulas on-line e as comunidades religiosas se reuniam remotamente.

“Isso me despertou para usar o bate-papo de vídeo a fim de me conectar com amigos fisicamente distantes*. Tenho pessoas que eu costumava ver apenas no Facebook ou pessoalmente duas vezes por ano, mas agora fazemos um bate-papo de vídeo em grupo uma vez por mês e estou mais perto delas do que nunca”, disse uma mulher de 39 anos de idade nos Estados Unidos.

* site em inglês