Em um laboratório de Ashland, cidade chuvosa de Oregon, cálices esculpidos, alças de punhal e joias ornamentadas aguardam inspeção. Eles chegam em pacotes lacrados com fita adesiva vermelha à prova de violação, ao invés de cera derretida como era antigamente. Estão espalhados por um corredor longo e branco para 14 cientistas examinarem.

Como em qualquer laboratório forense, as equipes capacitadas tentam desvendar a narrativa dos assassinatos, determinando quem eram as vítimas, como morreram, onde, quando e nas mãos de quem – sendo que fazem isso com peles, penas, presas e garras, algumas das quais se tornaram objets d’art (objetos de arte).

O comércio de vida selvagem é uma das formas de moeda corrente mais antigas do mundo, mas a caça ilegal de animais selvagens e o tráfico de produtos extraídos desses animais hoje se tornaram um empreendimento sério. Um dos crimes transnacionais mais lucrativos, ele gera receitas calculadas em torno de US$ 8 bilhões a US$ 10 bilhões ao ano. Inúmeras espécies foram caçadas até a beira da extinção, desde tartarugas a tigres. As populações estão mais ameaçadas pela perda de hábitat e por danos ao ecossistema decorrentes de pressões exercidas pela extração madeireira ilegal e pelo desenvolvimento.

(Laboratório Forense do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA)

Esforços para processar os violadores foram interrompidos antes do Laboratório Forense do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA abrir em Oregon. Desde 1989, o laboratório tem fornecido serviços analíticos e depoimentos de testemunhas especialistas para que as pessoas que estão caçando animais selvagens ilegalmente sejam punidas com multas e prisão.

“Vocês estão aqui para falar a verdade e sobre o que suas constatações científicas encontraram”, afirmou Ken Goddard, diretor do laboratório de 3.720 m2. “Já conseguiram ligar o suspeito, a vítima e a cena do crime com a prova física?”

Cerca de 150 mil provas são enviadas ao laboratório anualmente. Os primeiros casos envolveram habilidades de caça de grandes animais – tipicamente casos de um caçador e um animal. Ultimamente, o laboratório tem recebido provas que sugerem uma demanda crescente de partes de animais selvagens: chifre de rinoceronte, que vale mais por grama do que ouro, marfim de elefante e vesícula de urso.

Mas como os cientistas sabem se uma pulseira de marfim é de um elefante, narval, mamute ou hipopótamo? A colônia de besouros carnívoros do laboratório, que esqueletiza ossos para fins de identificação, nem sempre será suficiente. Tampouco suas digitalizações tridimensionais de valiosos espécimes de museu destinadas a comparar crânios e outros ossos.

Mas um instrumento de última geração do laboratório revela os componentes químicos de um item, ajudando os cientistas a identificar espécies. Outro pode emitir um laser ultravioleta em uma partícula de sangue para detectar moléculas de hemoglobina, que têm características específicas para cada espécie.

Marfim confiscado de comércio ilegal de vida selvagem (Thinkstock)

Além do laboratório, um arsenal de tecnologia inovadora tem como alvo o tráfico ilegal de vida selvagem – e tem ajudado a proteger empregos legítimos ligados à vida selvagem. “Há 13 milhões de pessoas na África Austral diretamente empregadas em negócios voltados para o safári e provavelmente o dobro de pessoas em papéis indiretos”, afirmou Tom Snitch, cientista de informática baseado em Maryland. “Se não houver animais, todos esses empregos serão perdidos.” Snitch mobiliza guardas florestais para deter caçadores ilegais com algoritmos – ou seja, drones (aeronaves não tripuladas) programados com seus cálculos. Dados históricos sobre padrões de caça ilegal, o movimento da fauna, a vegetação e o tempo todos fazem parte da matemática.

Neste laboratório, Goddard e sua equipe receberam cientistas do Brasil, da Austrália e da Inglaterra. Uma visita em maio de 2014 por Asis Perez, diretor do Bureau de Pesca e Recursos Aquáticos das Filipinas, abriu caminho para colaboração com os investigadores de vida selvagem daquele país. Goddard mostrou a Perez três presas de marfim, uma pintada de azul para demonstrar como revelar as impressões digitais. Os cientistas descobriram que as presas eram de elefantes da África Austral. O impacto da bala sugeriu que atiraram nos rebanhos do alto, provavelmente de um helicóptero. As outras três toneladas de marfim foram enviadas para Denver para serem trituradas.