Meninas afegãs codificam o ópio

Hands typing on laptop computer (Shutterstock)
Young women ages 14 to 25 have space to learn and build careers at the Code to Inspire computer training center in Herat, Afghanistan. (Shutterstock)

Quando Khatera (cujo sobrenome foi omitido neste artigo para preservar sua privacidade) morava em Herat, Afeganistão, seu irmão Ghulam era tradutor para as tropas americanas que limpavam campos de papoula no sul da província de Helmand. Ele fazia parte de uma missão contínua para reduzir a produção e exportação, por parte do Talibã, de ópio, derivado da papoula, por parte do Talibã.

Ghulam voltava para casa contando histórias de confrontos com traficantes de drogas e sobre a presença de minas explosivas para proteger laboratórios de ópio que financiavam o Talibã. Khatera se lembrou dessas histórias no ano passado em uma aula sobre design de jogos.

“O que meu irmão fez ao longo daqueles anos enquanto esteve no Exército não foi fácil”, diz Khatera. “Eu queria ter um papel [no esforço] para levar a paz para o meu país.”

Portanto, ela criou um jogo para compartilhar as histórias de Ghulam.

“Fight Against Opium” (Luta contra o ópio, em tradução livre) é um aplicativo de celular que escala jogadores para fazer o papel de um soldado afegão que limpa campos de papoula no interior do país. O jogo integra outros mais de 20 jogos na loja Google Play. Os jogos foram criados por estudantes no programa extracurricular Codificar para Inspirar*, em Herat, que capacita jovens mulheres nas carreiras de codificação e design.

O programa foi fundado em 2015 por Fereshteh Forough, professora de Ciências da Computação da Universidade de Herat. Após participar de uma incubadora de start-ups através da Embaixada dos EUA no Afeganistão com sua sócia, elas criaram uma organização sem fins lucrativos que se tornou sua plataforma de lançamento para o Codificar para Inspirar.

Através das aulas que lecionava, Fereshteh observou as limitações que afastam as mulheres afegãs da tecnologia. A porcentagem de alunas matriculadas nas universidades pulou de 0% para 20% desde a queda do Talibã em 2001, mas menos de um terço das mulheres ingressam no mercado de trabalho. Já que não é socialmente aceitável no Afeganistão mulheres trabalharem fora de casa, Fereshteh acredita que a codificação — que pode ser feita em casa — é uma boa oportunidade de carreira para as mulheres afegãs.

Com uma pequena campanha de captação de recursos e 20 doações de laptops, ela criou um lugar seguro para que meninas matriculadas no ensino médio e na universidade pudessem trabalhar em suas habilidades de codificação.

“Para fazer com que uma menina que nunca tocou em um computador acabe criando um site é um longo processo”, explica Fereshteh. “Desde o começo, a comunidade local aprendeu muito sobre codificação e tecnologia e como as mulheres podem fazer parte disso.”

Fereshteh agora mora em Nova York, onde se empenha em ampliar as redes de contato de suas alunas na comunidade tecnológica global. Algumas alunas do programa Codificar para Inspirar vão trabalhar com seus pares americanos no programa extracurricular Meninas Que Codificam em um vídeo para o Dia Internacional da Menina 2018. No início deste ano, uma convenção internacional de jogos convidou Khatera e sua equipe para demonstrar seu trabalho no aplicativo “Luta contra o Ópio”.

“Minha família tem orgulho de mim pelo que fiz, especialmente do meu irmão”, afirma Khatera, que planeja ser desenvolvedora de jogos após se formar.

“Luta contra o Ópio” começa com um incentivo a agricultores para substituir plantações de papoula por açafrão, estratégia para reduzir a quantidade de ópio vindo do Afeganistão.

“Ao criar esse jogo, mostramos que há um melhor substituto para o ópio, que é o açafrão”, garante Khatera.

* site em inglês