A maior denominação cristã do mundo pode parecer muito distante do reino secular da indústria da moda, mas uma grande exposição do Museu Metropolitano de Arte de Nova York (Met) argumenta que as duas esferas se convergem de fato — às vezes de formas inesperadas.

A exposição Corpos Celestes: moda e imaginação católica revela como as imagens católicas moldaram designs de moda inovadores durante o século 20 e início do século 21. O curador Andrew Bolton diz que a influência nem sempre foi unilateral.

Bolton, ao falar na abertura da exposição e em entrevista gravada em vídeo, explica por que o museu está ressaltando um cruzamento entre crença e moda.

O vestuário “é fundamental para qualquer discussão sobre religião: ele afirma as alianças religiosas e, por extensão, afirma as diferenças religiosas”, disse ele. “E, embora alguns possam considerar a moda como uma busca frívola, longe da santidade da religião, a maioria das vestimentas usadas pelo clero secular e pelas ordens religiosas da Igreja Católica tem suas origens no vestuário secular.”

1. Iconografia sagrada reinterpretada

Dois vestidos de noite (Fotocomposição digital © Katerina Jebb/Museu Metropolitano de Arte)
Este trabalho com contas de cristal em um vestido de Gianni Versace, à esquerda, imita uma cruz processional bizantina, enquanto um vestido de noite de Maria Grazia Chiuri e Pierpaolo Piccioli para Valentino, à direita, recria uma pintura do século 15 de um clássico tema bíblico: o Jardim do Éden (Fotocomposição digital © Katerina Jebb/Museu Metropolitano de Arte)

2. Tecidos luxuosos vs. detalhes ornamentados

Dois vestidos de noite (Fotocomposição digital © Katerina Jebb/Museu Metropolitano de Arte)
Traje noturno por Viktor Horsting e Rolf Snoeren por Viktor & Rolf, à esquerda, evoca estátuas medievais da Virgem Maria. À direita, um vestido de Domenico Dolce e Stefano Gabbana para a Dolce & Gabbana é uma reminiscência dos mosaicos bizantinos na Catedral de Ravenna da Itália (Fotocomposição digital © Katerina Jebb/Museu Metropolitano de Arte)

3. Visões beatíficas

Um conjunto noturno baseado em trajes papais ao lado de vestimentas estatuárias elaboradas (Fotocomposição digital © Katerina Jebb/Museu Metropolitano de Arte)
Um conjunto noturno de John Galliano para House of Dior, à esquerda, é baseado em paramentos papais. Uma vestimenta estatuária igualmente real, à direita, para a figura da Virgem de El Rocío na Capela Notre-Dame de Compassion, foi criada pelo designer francês Yves Saint Laurent (Fotocomposição digital © Katerina Jebb/Museu Metropolitano de Arte)

Corpos celestes é a maior exposição já realizada pelo Costume Institute (“Instituto das vestimentas”, em tradução livre), com mais de 40 itens emprestados pelo Vaticano, além de criações de alta-costura e prêt-à-porter inspiradas em trajes religiosos, rituais ou arte sacra ligada ao catolicismo. (O atual pontífice, o papa Francisco, se veste de maneira mais simples que seus antecessores.)

A exposição está espalhada por várias galerias no interior do Met, localizado na Quinta Avenida, e também ocupa parte do The Cloisters (filial do museu, construída a partir de elementos de mosteiros franceses). Os visitantes do museu, disse Bolton, encontrarão uma série de “diálogos” entre a moda e a arte religiosa enquanto se deslocam de uma área para outra.

Entre os tesouros do Vaticano está uma tiara de três camadas com 19 mil pedras preciosas (diamantes, rubis, safiras e esmeraldas), dadas pela rainha Isabella II da Espanha ao papa Pio IX em 1854. E algumas elaboradas vestes papais, todas feitas à mão, levaram 16 anos para serem produzidas.

Manequim em conjunto elaborado em museu (Kena Betancur/AFP/Getty Images)
Luxuoso conjunto de casamento de Christian Lacroix espelha a arte religiosa que retrata Maria, a Rainha dos Céus (© Kena Betancur/AFP/Getty Images

Enquanto isso, as roupas destinadas à passarela — principalmente de designers de origem católica — são combinadas com obras de arte medievais de temática católica das coleções do Met, oferecendo um contexto histórico para cada conjunto.

Fileira de manequins vestidos com trajes religiosos (© Kena Betancur/AFP/Getty Images)
Roupas que evocam hábitos de freiras, ordens monásticas e os sete sacramentos da Igreja Católica são exibidos no The Cloisters (© Kena Betancur/AFP/Getty Images)

Vestuário do outro mundo

Não é de se surpreender que as dramáticas silhuetas das vestimentas religiosas católicas tenham influenciado as criações dos designers de moda.

O costureiro espanhol Cristóbal Balenciaga, católico devoto, criou um vestido de noiva que lembra os vestidos em forma de cone vistos em estátuas da Virgem Maria. O vestido de Balenciaga é exibido no The Cloisters, juntamente com um vestido de casamento criado por Karl Lagerfeld que se assemelha a um manto de servidor de altar, e outros conjuntos com tons eclesiásticos.

Vestido vermelho em manequim, entre outros, em uma grande galeria de um museu (Agaton Strom/The New York Times)
Um vestido de tafetá de seda vermelha de Pierpaolo Piccioli para Valentino ecoa vestes vermelhas dos cardeais da Igreja Católica Romana (© Agaton Strom/The New York Times)

Apesar de alguns designers poderem evocar que o imaginário religioso seja instigante, “a maioria (…) se engaja com o que vê imbuída em nostalgia” e por causa de sua beleza transcendente, disse Bolton.

Ao descrever Corpos celestes como “uma peregrinação”, ele acrescentou: “Espero que uma das conclusões da exposição seja que o catolicismo tem um sistema de crenças que inspira algumas das mais extraordinárias obras de arte.”