O presidente Obama discursou em 7 de março de 2015, em Selma, no Alabama, para comemorar o 50o aniversário das marchas dos direitos civis ali realizadas. Essas marchas foram recebidas com violência policial, e 7 de março ficou conhecido como o Domingo Sangrento. Naquele dia, o líder comunitário John Lewis foi espancado e sofreu uma concussão. A violência em Selma chocou a nação e contribuiu para a aprovação no final daquele ano da Lei do Direito ao Voto. Hoje, Lewis é membro do Congresso dos EUA.

OBAMA: É uma rara honra na vida acompanhar um herói nosso. E John Lewis é um dos meus heróis.

Mas imagino que quando um John Lewis mais jovem acordou naquela manhã há 50 anos e seguiu em direção à Brown Chapel, não tinha o heroísmo em mente. Um dia como este não era o que ele tinha em mente. Jovens com sacos de dormir e mochilas moviam-se no meio da multidão. Veteranos do movimento treinavam os recém-chegados na tática da não violência; a maneira certa de se proteger quando atacado. Um médico descrevia o que o gás lacrimogêneo faz ao corpo, enquanto os manifestantes anotavam instruções para contatar seus entes queridos. O ar estava carregado de incertezas, expectativas e medo. E eles se confortavam com o verso final do último hino que cantavam:

“No matter what may be the test, God will take care of you;
Lean, weary one, upon His breast, God will take care of you.”
“Não importa qual seja o teste, Deus cuidará de você;
Recoste-se, cansado, sobre Seu peito, Deus cuidará de você.”

E, então, levando uma maçã, uma escova de dentes e um livro sobre governo na mochila, tudo o que é preciso para uma noite atrás das grades, John Lewis os conduziu para fora da igreja em uma missão para mudar os Estados Unidos.

O presidente Obama abraça o deputado John Lewis depois de Lewis apresentá-lo (Casa Branca/Pete Souza)

Presidente e senhora Bush, governador Bentley, prefeito Evans, deputada Sewell, reverendo Strong, congressistas, autoridades eleitas, soldados de infantaria, amigos e meus concidadãos americanos,

Como observou John, há lugares e momentos nos Estados Unidos em que o destino desta nação foi decidido. Muitos são locais de guerra — Concord e Lexington, Appomattox, Gettysburg. Outros são locais que simbolizam a coragem do caráter dos Estados Unidos — Salão da Independência e Seneca Falls, Kitty Hawk e Cabo Canaveral.

Selma é um desses lugares. Em uma tarde 50 anos atrás, grande parte da nossa história turbulenta — a mancha da escravidão e a angústia da guerra civil; o jugo da segregação e a tirania das leis de Jim Crow; a morte de quatro meninas em Birmingham; e o sonho de um pastor batista — toda essa história se encontrou nesta ponte.

Não foi um confronto de exércitos, mas um confronto de vontades; uma disputa para determinar o verdadeiro significado dos Estados Unidos. E, devido a homens e mulheres como John Lewis, Joseph Lowery, Hosea Williams, Amelia Boynton, Diane Nash, Ralph Abernathy, C.T. Vivian, Andrew Young, Fred Shuttlesworth, Martin Luther King, Jr. e muitos outros, a ideia de um país correto e justo, de um país inclusivo e de um país generoso acabou triunfando.

Como sempre no cenário da história americana, não podemos examinar esse momento isoladamente. A marcha de Selma fez parte de uma campanha mais ampla que se estendeu por gerações; os líderes daquele dia, parte de uma longa linhagem de heróis.

Estamos aqui reunidos para celebrar esses líderes. Estamos aqui reunidos para homenagear a coragem de americanos simples dispostos a resistir a cassetetes e agressões físicas; gás lacrimogêneo e pisoteio de cascos; homens e mulheres que apesar do sangue jorrando e dos ossos quebrados permaneceriam fiéis à Estrela Polar e continuariam marchando em direção à justiça.

Eles fizeram como ensinou a Bíblia: “Alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverai na oração.” E nos dias que se seguiram, eles voltaram repetidas vezes. Quando o chamado da trombeta soou conclamando mais pessoas, elas vieram — negros e brancos, jovens e velhos, cristãos e judeus, segurando a bandeira americana e cantando os mesmos hinos cheios de fé e esperança. Um jornalista branco, Bill Plante, que cobriu as marchas na época e está aqui conosco hoje, brincou dizendo que o número crescente de brancos prejudicou a qualidade do canto. Para aqueles que marcharam, no entanto, aquelas antigas canções gospel provavelmente nunca soaram tão doce.

Com o tempo, o coro ficaria mais forte e chegaria até o presidente Johnson. E ele enviaria proteção para eles e falaria à nação, ecoando o chamado dos manifestantes aos Estados Unidos e ao mundo para ouvir: “We Shall Overcome (Nós Vamos Superar).” Que fé imensa tinham esses homens e mulheres. Fé em Deus, mas também fé nos Estados Unidos.

“Nosso país nunca mais será o mesmo devido ao que aconteceu naquela ponte. (…) Ainda há o que fazer. Vamos à luta e vamos pressionar até redimirmos a alma dos Estados Unidos.” — Deputado John Lewis

Os americanos que atravessaram esta ponte não impuseram nada fisicamente. Mas deram coragem a milhões de pessoas. Não mantinham cargos eletivos. Mas conduziram uma nação. Marcharam como americanos que haviam suportado centenas de anos de violência brutal, inúmeros insultos diários — mas não procuraram tratamento especial, apenas a igualdade de tratamento prometida a eles quase um século antes.

O que eles fizeram aqui reverberará para sempre. Não porque a mudança que eles conquistaram foi preordenada; não porque a vitória foi completa; mas porque provaram que a mudança não violenta é possível, que o amor e a esperança podem vencer o ódio.

Ao comemorarmos sua conquista, é bom nos lembrarmos que, na época das marchas, eles foram condenados, e não elogiados, por muitos que estavam no poder. Naquela época, foram chamados de comunistas, mestiços, agitadores externos, degenerados sexuais ou morais e coisas piores — eram chamados de tudo, menos pelo nome que receberam dos pais. A fé deles foi questionada. A vida deles foi ameaçada. O patriotismo deles foi desafiado.

E, no entanto, o que poderia ser mais americano do que o que aconteceu neste lugar? O que poderia justificar mais profundamente a ideia dos Estados Unidos do que pessoas simples e humildes — anônimas, oprimidas, sonhadoras, não da alta classe, nascidas não na riqueza ou no privilégio, não em uma tradição religiosa, mas em muitas, unindo-se para moldar o curso do seu país?

O reverendo Martin Luther King Jr., no centro, lidera manifestantes na Ponte Edmund Pettis, em Selma, no Alabama, em 21 de março de 1965, em apoio ao direito ao voto dos afro-americanos (© AP Images)

Que maior expressão da fé na experiência americana do que essa, que maior forma de patriotismo do que a crença de que os Estados Unidos ainda não estão concluídos, de que somos fortes o suficiente para termos autocrítica, de que cada geração sucessiva pode olhar para nossas imperfeições e decidir que temos poder para reconstruir esta nação e alinhá-la mais de perto aos nossos ideais mais elevados?

É por isso que Selma não é um caso isolado na experiência americana. É por isso que não é um museu nem um monumento estático a ser contemplado à distância. É, ao contrário, a manifestação de um credo escrito nos documentos da nossa fundação: “Nós o povo… a fim de formar uma União mais perfeita.” “Consideramos estas verdades autoevidentes, que todos os homens são criados iguais.”

Não são apenas palavras. Têm vida, são um chamado à ação, diretrizes para a cidadania e insistência na capacidade de homens e mulheres livres moldarem seu próprio destino. Para os fundadores da nação, como Franklin e Jefferson, para líderes como Lincoln e Roosevelt, o sucesso da nossa experiência com o autogoverno residia em envolver todos os cidadãos nesse trabalho. E é isso que celebramos aqui em Selma. É isso que foi esse movimento, uma etapa em nossa longa jornada em direção à liberdade.

O instinto americano que levou esses jovens homens e mulheres a erguer a tocha e cruzar esta ponte é o mesmo instinto que moveu patriotas a escolher a revolução à tirania. É o mesmo instinto que atraiu imigrantes do outro lado do oceano e do Rio Grande; o mesmo instinto que levou as mulheres a conquistar o direito ao voto, trabalhadores a se organizarem contra um status quo injusto; o mesmo instinto que nos levou a fincar uma bandeira em Iwo Jima e na superfície da Lua.

“O presidente fez um discurso que não foi apenas altivamente eloquente, mas intensamente honesto… foi um discurso forte. O presidente demonstrou um profundo amor ao país que reflete os valores daquelas pessoas que derramaram sangue, suor e lágrimas naquela ponte.” — Cornell William Brooks, presidente da Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor (NAACP)

É a ideia defendida por gerações de cidadãos que acreditaram que o nosso país é uma obra em constante evolução; que acreditaram que amar este país requer mais do que cantar seus louvores ou evitar verdades incômodas. Requer rupturas ocasionais, a disposição de defender o que é certo, de sacudir o status quo. Isso é os Estados Unidos.

É o que nos torna únicos. É o que solidifica nossa reputação como um farol de oportunidades. Jovens atrás da Cortina de Ferro veriam Selma e acabariam derrubando aquele muro. Jovens em Soweto ouviriam Bobby Kennedy falar das ondas de esperança e acabariam banindo o flagelo do apartheid. Jovens na Birmânia foram para a cadeia ao invés de se submeter ao regime militar. Eles viram o que John Lewis havia feito. Das ruas de Túnis à praça Maidan na Ucrânia, esta geração de jovens pode tirar força deste lugar, onde os sem poder puderam mudar o maior poder do mundo e pressionar seus líderes para ampliar os limites da liberdade.

Eles viram aquela ideia virar realidade bem aqui em Selma, no Alabama. Eles viram aquela ideia se manifestar aqui nos Estados Unidos. Devido a campanhas como essa, a Lei do Direito ao Voto foi aprovada. Barreiras políticas, econômicas e sociais foram derrubadas. E a mudança que esses homens e mulheres acarretaram é visível aqui hoje na presença de afro-americanos que presidem conselhos de administração, que são juízes, que servem em cargos públicos eletivos de pequenas a grandes cidades; da Bancada Negra do Congresso até o Salão Oval da Casa Branca.

Em Selma, no Alabama, o presidente Obama cumprimenta a ativista dos direitos civis Amelia Boynton Robinson, 103 anos, nos bastidores antes da cerimônia de comemoração. Amelia participou das históricas marchas de Selma a Montgomery em 1965 (Casa Branca/Pete Souza)

Por causa do que fizeram, as portas da oportunidade se abriram não apenas para os negros, mas para todos os americanos. As mulheres marcharam por essas portas. Os latino-americanos marcharam por essas portas. Os ásio-americanos, os gays americanos, os americanos com deficiências — todos passaram por essas portas. Seus esforços deram a todo o Sul a chance de se erguer novamente, não reafirmando o passado, mas transcendendo o passado.

Que coisa gloriosa, Luther King poderia dizer. E que dívida solene a nossa. O que nos faz perguntar: como podemos pagar essa dívida?

Em primeiro lugar, temos de reconhecer que uma comemoração de um dia, não importa o quanto seja especial, não é suficiente. Se Selma nos ensinou alguma coisa, é que o nosso trabalho nunca chega ao fim. A experiência americana com o autogoverno dá trabalho e propósito a todas as gerações.

Selma também nos ensina que a ação requer que nos livremos do ceticismo. Pois quando se trata de perseguir a justiça, não podemos nos dar ao luxo nem de complacência nem de desespero.

“O presidente Obama foi forte e comovente em Selma hoje. Tantas coisas realizadas e tantas mais a serem feitas.” — Senador Chuck Schumer

Nesta semana me perguntaram se eu achava que o relatório do Departamento de Justiça sobre Ferguson mostra que, com relação à questão racial, pouca coisa mudou neste país. E entendi a pergunta; o que o relatório descreve é tristemente familiar. Evoca o tipo de abusos e de desrespeito aos cidadãos que deu origem ao Movimento pelos Direitos Civis. Mas rejeito a ideia de que nada mudou. O que ocorreu em Ferguson pode não ser um caso isolado, mas não é mais endêmico. Não é mais sancionado por lei ou pelos costumes. E antes do Movimento pelos Direitos Civis certamente era.

Prestamos um desserviço à causa da justiça quando insinuamos que o preconceito e a discriminação são imutáveis, que a divisão racial é inerente aos Estados Unidos. Se você acha que nada mudou nos últimos 50 anos, pergunte a alguém que viveu em Selma, Chicago ou Los Angeles nos anos 1950. Pergunte a uma CEO que já tenha sido designada para trabalhar em um pool de secretárias se nada mudou. Pergunte a um amigo gay se é mais fácil sair do armário e ter orgulho nos Estados Unidos hoje ou 30 anos atrás. Negar esses avanços, esses avanços duramente conquistados — nossos avanços — seria nos roubar nossas próprias ações, nossa própria capacidade, nossa responsabilidade de fazer o que pudermos para tornar os Estados Unidos um país melhor.

É claro que um erro mais comum é sugerir que Ferguson é um incidente isolado; que o racismo está banido; que o trabalho que atraiu homens e mulheres a Selma está concluído e que quaisquer tensões raciais que persistam são consequência daqueles que buscam explorar a questão racial em interesse próprio. Não precisamos do relatório de Ferguson para saber que isso não é verdade. Só precisamos abrir os olhos, os ouvidos e o nosso coração para saber que a história racial desta nação ainda lança sua longa sombra sobre nós.

A ex-primeira-dama Laura Bush, a primeira-dama Michelle Obama, o presidente Obama, o deputado John Lewis, o ex-presidente George W. Bush e a deputada Terri Sewell dão as mãos em Selma, no Alabama, em 7 de março (© AP Images)

Sabemos que a marcha ainda não acabou. Sabemos que a corrida ainda não está ganha. Sabemos que chegar àquele destino abençoado onde somos julgados, todos nós, pelo conteúdo do nosso caráter exige admitir isto, enfrentar a verdade. “Somos capazes de suportar um grande fardo”, escreveu James Baldwin certa vez, “quando descobrimos que o fardo é a realidade e chegamos aonde a realidade está”.

Não existe nada com que os Estados Unidos não possam lidar se realmente olharmos para o problema de frente. E isso é tarefa para todos os americanos, não apenas para alguns. Não só para os brancos. Não só para os negros. Se quisermos honrar a coragem daqueles que marcharam naquele dia, então todos nós somos chamados a ter sua imaginação moral. Todos nós precisamos sentir, como eles sentiram, a urgência impetuosa do agora. Todos nós precisamos reconhecer, como eles reconheceram, que a mudança depende das nossas ações, das nossas atitudes, das coisas que ensinamos aos nossos filhos. E se fizermos esse esforço, independentemente de quão difícil possa parecer às vezes, leis podem ser aprovadas, consciências podem ser encorajadas e o consenso pode ser construído.

O presidente Obama cumprimenta multidão em Selma, no Alabama, depois de proferir seu discurso em comemoração aos 50 anos das marchas de Selma a Montgomery pelos direitos civis (Casa Branca/Pete Souza)

Com esse esforço, podemos garantir que o nosso sistema de justiça criminal sirva a todos e não apenas a alguns. Juntos, podemos elevar o nível de confiança mútua sobre o qual o policiamento é construído — a ideia de que os policiais são membros das comunidades para as quais arriscam a vida para proteger, e os cidadãos de Ferguson, de Nova York e de Cleveland querem a mesma coisa que queriam os jovens que marcharam aqui há 50 anos — a proteção da lei. Juntos, podemos dar um jeito em sentenças injustas e prisões superlotadas e nas circunstâncias paralisantes que roubam a chance de tantos meninos se tornarem homens e roubam também da nação muitos homens que poderiam ser bons pais, bons trabalhadores e bons vizinhos.

Com esforço, podemos reduzir a pobreza e os obstáculos às oportunidades. Os americanos não aceitam nada que se ganhe sem esforço, nem acreditamos em igualdade de resultados. Mas esperamos igualdade de oportunidades. E se realmente levamos isso a sério, se não for apenas retórica, mas se realmente estivermos falando sério e dispostos a nos sacrificar por isso, então, sim, podemos garantir que toda criança tenha uma educação condizente com este novo século, que expanda a imaginação e eleve as visões e dê a essas crianças as habilidades de que necessitam. Podemos garantir que todas as pessoas dispostas a trabalhar tenham a dignidade de um emprego, um salário justo, voz de fato e degraus mais resistentes na escada que leva à classe média.

E, com esforço, podemos proteger a pedra fundamental da nossa democracia, pela qual tantos marcharam por esta ponte — que é o direito ao voto. Ainda hoje, em 2015, 50 anos depois de Selma, há leis por todo este país destinadas a dificultar o voto das pessoas. Enquanto falamos, mais leis como essas estão sendo propostas. Enquanto isso, a Lei do Direito ao Voto – o ponto culminante de tanto sangue, de tanto suor e lágrimas, produto de tanto sacrifício em face à violência gratuita – está enfraquecida, seu futuro sujeito a rancor político.

Como pode isso? A Lei do Direito ao Voto foi uma das realizações que coroaram a nossa democracia, resultado de esforços republicanos e democratas. O presidente Reagan assinou sua renovação durante o seu governo. O presidente George W. Bush assinou sua renovação durante o seu governo. Cem parlamentares vieram hoje aqui honrar as pessoas que estavam dispostas a morrer pelo direito de protegê-la. Se quisermos honrar este dia, vamos fazer com que esses cem voltem a Washington e consigam mais quatrocentos e, juntos, prometam fazer com que seja sua missão restaurar essa lei este ano. É assim que honramos aqueles nesta ponte.

Nos bastidores, o ex-presidente George W. Bush conversa com Sasha e Malia Obama e a avó das meninas, Marian Robinson (Casa Branca/Pete Souza)

É claro que a nossa democracia não é tarefa apenas do Congresso, ou apenas da Justiça ou mesmo apenas do presidente. Se todas as novas leis para supressão de eleitores fossem derrubadas hoje, ainda teríamos, aqui nos Estados Unidos, um dos índices de votação mais baixos entre os povos livres. Há 50 anos, registrar para votar aqui em Selma e em grande parte do Sul significava adivinhar o número de balas de goma no pote ou o número de bolhas em uma barra de sabão. Significava arriscar a dignidade e, às vezes, a vida.

Qual a nossa desculpa hoje para não votar? Como descartamos de maneira tão despreocupada o direito pelo qual tantos lutaram? Como abrimos mão tão totalmente de nosso poder, da nossa voz, para moldar o futuro dos Estados Unidos? Por que estamos culpando outra pessoa quando poderíamos simplesmente ir até os locais de votação? Abrimos mão do nosso poder.

Caros manifestantes, muita coisa mudou em 50 anos. Suportamos a guerra e criamos a paz. Vimos maravilhas tecnológicas que afetam todos os aspectos na nossa vida. Damos como certo comodidades que nossos pais dificilmente poderiam ter imaginado. Mas o que não mudou foi o imperativo da cidadania; aquela disposição de um diácono de 26 anos ou de um ministro unitarista ou de uma jovem mãe de cinco filhos de decidir que amavam tanto este país que arriscariam tudo para cumprir sua promessa.

É isso que significa amar os Estados Unidos. É isso que significa acreditar nos Estados Unidos. É isso que significa quando dizemos que os Estados Unidos são excepcionais.

Pois nós nascemos da mudança. Rompemos com as velhas aristocracias, declarando-nos merecedores não pelo sangue, mas dotados pelo nosso Criador com determinados direitos inalienáveis. Asseguramos nossos direitos e responsabilidades por meio de um sistema de autogoverno pelo e para o povo. É por isso que discutimos e brigamos com tanta paixão e convicção — porque sabemos que nossos esforços importam. Sabemos que os Estados Unidos são o país que fazemos dele.

“Eu sabia que existiam barreiras [para os afro-americanos votarem em 1965], mas não entendia totalmente o quão onerosas e altas eram essas barreiras.” — Senadora Susan Collins

 Vejam a nossa história. Somos Lewis e Clark e Sacajawea, pioneiros que enfrentaram o desconhecido, seguidos por agricultores e mineiros, empreendedores e vendedores ambulantes. Esse é o nosso espírito. Isso é o que somos.

Somos Sojourner Truth e Fannie Lou Hamer, mulheres que puderam fazer tanto quanto qualquer homem e mais. E somos Susan B. Anthony, que sacudiu o sistema até que a lei refletisse aquela verdade. Esse é o nosso caráter.

Somos os imigrantes que se esconderam em navios para chegar à nossa costa, as massas amontoadas ávidas por respirar liberdade — sobreviventes do Holocausto, desertores soviéticos, os garotos perdidos do Sudão. Somos os batalhadores esperançosos que atravessam o Rio Grande porque queremos que nossos filhos conheçam uma vida melhor. É assim que viemos a ser.

Somos os escravos que construíram a Casa Branca e a economia do Sul. Somos os peões e os vaqueiros que desbravaram o Oeste e os inúmeros trabalhadores que assentaram trilhos, levantaram arranha-céus e organizaram os direitos dos trabalhadores.

Somos os jovens soldados que lutaram para libertar um continente. E somos os pilotos de Tuskegee, os codificadores navajo e os nipo-americanos que lutaram por este país mesmo quando sua própria liberdade lhes havia sido negada.

Somos os bombeiros que se apressaram para entrar nos edifícios do 11/9, os voluntários que se apresentaram para lutar no Afeganistão e no Iraque. Somos os americanos gays cujo sangue correu nas ruas de São Francisco e Nova York, do mesmo modo que o sangue correu nesta ponte.

Somos contadores de histórias, escritores, poetas, artistas que abominam a injustiça, desprezam a hipocrisia, dão voz aos sem voz e dizem verdades que precisam ser ditas.

Somos os inventores do gospel, do jazz e do blues, do bluegrass e do country, do hip-hop e do rock-and-roll, e do nosso próprio som com toda a doce tristeza e a alegria impulsiva da liberdade.

Somos Jackie Robinson, suportando o escárnio, as travas cravadas das chuteiras e os arremessos feitos em direção à sua cabeça e mesmo assim roubando a base na World Series.

Somos as pessoas sobre as quais Langston Hughes escreveu que “construímos nossos templos para o amanhã, sólidos como sabemos”. Somos as pessoas sobre as quais Emerson escreveu, “que em nome da verdade e da honra mantêm-se firmes e sofrem por muito tempo”; que “nunca estamos cansados, desde que possamos ver longe o suficiente”.

Os Obamas e os Bushes lideram os manifestantes na Ponte Edmund Pettis em Selma, no Alabama, em 7 de março (Casa Branca/Lawrence Jackson)

É isso o que são os Estados Unidos. Não fotos de arquivo ou história retocada ou tentativas débeis de definir alguns de nós como mais americanos do que outros. Respeitamos o passado, mas não lamentamos o passado. Não tememos o futuro; nós nos apropriamos dele. Os Estados Unidos não são um país frágil. Somos grandes, nas palavras de Whitman, contendo multidões. Somos impetuosos e diversos e cheios de energia, eternamente jovens de espírito. É por isso que alguém como John Lewis do alto de seus de 25 anos pôde liderar uma marcha poderosa.

E é isso que os jovens presentes aqui hoje e os que estão acompanhando por todo o país precisam levar desse dia. Vocês são os Estados Unidos. Ilimitados por hábitos e convenções. Desimpedidos pelo que são, porque estão prontos para agarrar o que deve ser.

Por toda a parte deste país há primeiros passos a serem dados, um novo caminho a percorrer, mais pontes a serem cruzadas. E são vocês, os jovens e sem medo no coração, a geração mais diversificada e instruída da nossa história, que a nação está aguardando para seguir.

Porque Selma nos mostra que os Estados Unidos não são o projeto de uma só pessoa. Porque a palavra isolada mais poderosa da nossa democracia é a palavra “nós”. “Nós, o povo.” “Nós Vamos Superar.” “Sim, nós podemos.” Essa palavra não é de ninguém. Pertence a todos. Ah, que tarefa gloriosa nos é dada, tentar continuamente melhorar esta nossa grande nação.

Cinquenta anos depois do Domingo Sangrento, nossa marcha ainda não está concluída, mas estamos chegando lá. Duzentos e trinta e nove anos depois da fundação desta nação, nossa União ainda não é perfeita, mas estamos chegando lá. Nosso trabalho está mais fácil porque alguém já percorreu aquele primeiro quilômetro e tanto. Alguém já nos colocou nesta ponte. Quando sentirmos que o caminho é muito árduo, quando a tocha que nos passaram estiver muito pesada, vamos nos lembrar daqueles primeiros viajantes e tirar força do exemplo deles e lembrar das palavras do profeta Isaias: “Aqueles que esperam no Senhor renovarão sua força. Subirão com asas como águias. Correrão e não se cansarão. Caminharão e não se fatigarão.”

Homenageamos aqueles que caminharam para que nós pudéssemos correr. Precisamos correr para que nossos filhos possam voar alto. E não nos cansaremos. Porque acreditamos no poder de um Deus maravilhoso e acreditamos na promessa sagrada deste país.

Que Ele abençoe aqueles guerreiros da justiça que não estão mais entre nós e abençoe os Estados Unidos da América. Obrigado a todos.